Durante o secundário estudei ciências, uma escolha influenciada por um professor que via em mim uma futura engenheira. Não foram os anos em que me senti mais confortável (não ajudava ser a única rapariga da turma, com a sensação de que tudo me custava mais só por isso, mas esse é assunto para outro dia).
Guardo boas memórias dessa altura e, sobretudo, um grupo de amigos que ainda hoje aparece a qualquer hora. Ao contrário de mim, todos eles enveredaram por alguma engenharia e trabalham em informática. Eu fui pelo jornalismo, mas nunca deixei de querer juntar o mundo deles ao meu.
Sou finalista da pandemia. Acabei a licenciatura em junho de 2020, por Zoom, e foi por essa altura que decidi aprender desenvolvimento web, muito por nem ter a certeza de que o jornalismo era mesmo para mim. Comprei um curso de doze euros na Udemy e aprendi a viver na arte do desenrascanço: horas de Stack Overflow (confesso que até tenho saudades) e mensagens intermináveis aos meus amigos a perguntar como raio se fazia isto ou aquilo.
Eles nunca perceberam bem por que é que eu me dava a tanto trabalho. Achavam estranho, mas depressa se renderam à ideia de que eu tinha metido na cabeça seguir por ali e não havia volta a dar.
E foram sempre incansáveis. Não se chateiam quando lhes falo de gamificação durante horas ou lhes atiro dúvidas sem pés nem cabeça, e ainda não desistiram de me explicar o que é a programação orientada a objetos. Dizem-me que percebo mais do que julgo, mas há uma crítica que nunca falha: eu não penso como um engenheiro.
E é verdade. Um engenheiro trata de facilitar a própria vida: se uma mecânica funciona, torna-a reutilizável. Eu funcionava ao contrário, cada projeto começado do zero e deitado ao lixo no fim. Quando nos juntamos para um café lá na nossa terra natal, a conversa cai sempre no «então, e o trabalho?», e há uns tempos começou a escapar-lhes um «estás a começar a pensar como uma engenheira».
E acho que têm razão, não só sobre mim. Fala-se tanto de produtividade, de como a IA nos vai salvar a vida, mas antes disso há um gesto bem mais simples ao alcance de qualquer jornalista: pensar um bocadinho como engenheiro. Perguntar o que se pode montar agora para não andar a repetir o mesmo trabalho amanhã. No jornalismo isto faz ainda mais sentido, porque vivemos mergulhados na maré da atualidade e o mundo interrompe-nos a toda a hora.
Estes dias têm sido tomados por essa maré. O INE pôs fim ao vazio estatístico sobre quem são e de onde vêm os imigrantes em Portugal, a Venezuela tremeu duas vezes em 39 segundos, houve incêndios e mudaram as regras de acesso ao SNS. Escrevi sobre tudo isto nos últimos quinze dias. E, no meio da correria, ainda lancei dois newsgames com uma semana de intervalo. Um é um quiz sobre os Mundiais de futebol, com uma estética inspirada nos cromos e nas cadernetas da Panini. O outro conta os 250 anos da independência dos EUA numa timeline de presidentes e marcos, e saiu a 4 de julho.
O quiz dos Mundiais, no Tribuna Expresso, com uma estética inspirada nos cromos da Panini.
Os 250 anos da independência dos EUA, dos presidentes aos momentos mais marcantes.
Os dois nascem da mesma ideia, gamificar timelines, uma coisa que o New York Times faz lindamente no seu quiz. A mecânica é idêntica: recebes uma carta de cada vez, com uma pista, e tens de a encaixar no sítio certo da linha do tempo. A lógica de arrastar, validar e pontuar está escrita uma única vez; de um jogo para o outro, só troco o ficheiro de dados, que preparei com colegas que sabem muito mais de Mundiais e dos Estados Unidos do que eu.
É essa a parte de que mais gosto. Uma timeline à moda antiga é uma lista de datas por onde os olhos passam sem parar. Transformada em jogo, coloca quem lê no centro da história: em vez de a receber pronta, é a própria pessoa que arruma cada acontecimento no seu lugar e vai construindo a cronologia a seu ritmo. E, para quem só quer informar-se, fica sempre a porta aberta para passar tudo à frente e ler de seguida.
As interfaces não podiam ser mais diferentes, mas é a mesma engrenagem a contar 250 anos de história americana ou décadas de Mundiais. Há uns anos teria feito os dois do princípio ao fim, um a um. Desta vez fiz um motor, e para a próxima timeline jogável já não parto do zero. Se calhar era só isto que eles andavam a tentar dizer-me, ali sentados à mesa do café.