Desde pequena que sinto que não tenho tempo. Se calhar é por ser a mais nova da família, entre o meu irmão e os meus primos. Queria sempre estar a fazer aquilo que eles estavam a fazer. Foi assim que aprendi a andar. Eu queria brincar com o meu irmão mais velho, mas o meu conceito de brincar na altura era pegar em tudo o que ele estava a fazer, por isso, para ganhar tempo, ele punha-me ao fundo do corredor e eu demorava até gatinhar até ao quarto dele. Numa dessas vezes, o meu cérebro deve ter percebido que era mais rápido a andar. Foi assim que dei os primeiros passos, e a minha mãe achou que ele estava a inventar quando gritou que eu estava de pé.
Com o tempo, passou a ser uma piada lá em casa que eu dei os primeiros passos na direção do meu irmão. Não é segredo para ninguém que nos conheça que ele é o meu modelo. Sempre foi. Tudo o que ele fazia eu tentava fazer também, e provavelmente é por isso que sou jornalista de dados. Temos os mesmos genes e a mesma educação, e somos as duas pessoas mais parecidas que se pode conhecer. A namorada dele e o meu namorado fazem sempre essa piada.
Fomos felizes, mas aprendemos que ser bom naquilo que se faz é o mínimo dos mínimos e que o trabalho compensa. É o que acontece quando os teus avós cresceram na pobreza e tentaram tudo para não serem pobres, e foram emigrantes, e os filhos deles eram gozados na escola por serem filhos de portugueses. A maior conquista dos meus avós foi terem uma casa e terem posto um dos filhos a estudar enfermagem.
Os meus pais sabiam onde tinham sido criados e tentaram fazer a vida dos filhos muito melhor. Queriam dar-nos, a mim e ao meu irmão, uma vida melhor. Cheia de educação, de jornais e de muitas atividades extracurriculares.
Eu tive uma vida bem mais fácil do que o meu irmão, essa é a parte boa de ser a mais nova. Fomos os dois muito bons alunos. Toda a gente achava que ele ia ser médico ou engenheiro. Para mim, a resposta era engenharia. Plot twist: decidimos os dois ser jornalistas. Pois. Todos aqueles anos de boas notas e de muita matemática e acabas numa profissão que não paga assim tão bem e ainda tens a coragem de a misturar com matemática e programação.
O resultado, vinte e tal anos depois, é uma lista de ideias que cresce mais depressa do que a minha capacidade de lhes pegar. E são quase todas ideias de trabalho, o que já diz alguma coisa sobre mim. Não sonho com viagens, sonho com projetos. Há dias em que abro o computador com vontade de começar três coisas ao mesmo tempo. Não é figura de estilo, é mesmo três: uma que já devia estar feita há que tempos, uma que me apareceu na cabeça no banho e outra que só existe porque vi um gráfico bonito de outra pessoa e pensei que aquilo podia ser um bom ponto de partida para um trabalho em Portugal, com um bocado de inveja à mistura por não ter tido eu a ideia primeiro. Cada uma delas, se eu for honesta, precisa de duas ou três semanas de trabalho a sério.
E mesmo as ideias que não são de trabalho pedem exatamente a mesma coisa: tempo, cabeça e estudo. Inscrevia-me num doutoramento amanhã, se pudesse. Lia todos os livros do mundo. Gostava de aprender, finalmente, a não matar as plantas cá de casa, e desconfio que isso ia acabar comigo a ler três livros sobre rega antes de pegar num regador. Se calhar isto já não é descansar. Na minha cabeça conta.
E eu sou uma. É essa a parte que me custa mais admitir. Não é falta de tempo em abstrato, é que sou uma pessoa só, com um par de mãos, e as ideias não fazem fila, aparecem todas ao mesmo tempo e ficam ali a olhar para mim.
Depois há a outra vontade, que aparece exatamente ao mesmo tempo e não pede licença. Fechar tudo. Ir dar uma volta. Ler uma coisa que não serve para nada, além de puro entretenimento. Ir ao ballet e ser má durante uma hora sem que isso tenha consequências. Passar um sábado inteiro sem produzir absolutamente nada e não sentir que devia estar noutro sítio.
As duas vontades vivem na mesma cabeça, ao mesmo tempo, e é ridículo.
2026 tornou isto tudo mais barulhento. Não vou entrar em detalhes, mas tem sido o ano mais difícil da minha vida. Do tipo de difícil que muda a química do cérebro, em que perguntas se tu e as pessoas de quem gostas mais vão voltar a estar em paz, ou felizes, algum dia. Do tipo de coisas que te fazem sentir mesmo que não controlas nada e que o tempo cá é muito curto.
Não é uma metáfora, é mesmo o que acontece: passas a olhar para o calendário de outra maneira, e fica uma urgência nova por baixo de tudo, até por baixo das coisas pequenas.
E a urgência corta para os dois lados, que é a parte que ninguém explica. Nuns dias faz-me querer despachar tudo, agora, enquanto dá. Noutros faz-me olhar para a lista de ideias e achá-la um bocado obscena. Vou morrer e alguém vai olhar para o meu computador e encontrar pastas com projetos por acabar.
Só que a resposta óbvia, larga tudo e vai viver, também não me serve. Porque eu gosto disto. Gosto mesmo. As ideias não aparecem por obrigação, aparecem porque acho piada, porque quero ver a coisa feita, porque há um prazer estúpido em ver uma coisa que estava só na minha cabeça a funcionar no browser. Se eu largasse tudo e fosse viver, o que ia querer fazer com o tempo livre era, muito provavelmente, um projeto.
Então continuo a escolher uma coisa de cada vez, mal, e a deixar as outras a apodrecer na lista. E continuo a sentir-me culpada pelas duas coisas ao mesmo tempo, por não fazer mais e por não parar. Não tenho um método. Não vou dizer que aprendi a dizer que não, porque não aprendi.
Este ano vi uma das pessoas mais importantes da minha vida a reaprender coisas que já sabia fazer aos dois anos. Continuo a não saber o que fazer com isso.